Apuleio - Sobre o Deus de Sócrates (Parte 1)

     Platão dividiu em três toda a natureza das coisas, principalmente da parte que pertence aos seres animados, e considerou que os deuses seriam os mais elevados. Não entendas “o mais alto”, “o médio” e “o mais baixo” apenas como divisões de lugar, mas também como divisões de dignidade na natureza, que não são elas mesmas entendidas de um ou dois modos, mas de muitos. Contudo, pareceu-lhe que começar por uma disposição de lugar deixaria as coisas mais claras. Então, por essa razão, Platão dedicou o céu aos deuses imortais, como requeria a sua majestade; deuses que, de fato, alguns de nós os consideram seres celestes pela visão, e outros de nós os investigam pelo intelecto. Pela visão, de fato, percebemos...

a vós, ó claríssima luz do mundo,
que conduzis o ano ao laborardes no céu;
(Virg. Georg. 1,5-6)

e não percebemos apenas essas coisas principais: o operador do dia e a Lua, rival do Sol e glória da noite — esteja ela côncava ou pela metade, gibosa ou cheia —, quanto mais longe se afasta do Sol, tanto mais é iluminada por uma tocha de vários fogos, e que, com igual incremento de caminho e iluminação, estima o mês pelos seus aumentos e depois pelos seus dispêndios iguais. Ou — como pensam os caldeus — ela é rica de um candor característico, mas contínuo, por um lado possuindo luz e por outro carecendo de fulgor, e muda a sua forma de múltiplas maneiras conforme a circunversão de sua face de diversas cores, ou ela é totalmente ausente de candor próprio e, necessitada da luz alheia, assume os raios do sol, estando ele inclinado ou oposto a ela, por um corpo denso, porém leve, como que por um certo espelho, e, como Lucrécio faz uso das palavras...

lança de seu corpo uma luz espúria;
(Lucr. 5,575)

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